História de um pescador
Marcos Malta Migliano
Eu
particularmente tive muitos mestres e deles guardo grandes
recordações. Sou-lhes profundamente grato pelo pouco que sei. Um
deles, Antonio Peres, conheci em 1963, em Ubatuba. Juntamente com
Lothar Bamberg, ele me ensinou muitas coisas sobre pesca e mar.
"Seu Peres" nasceu na Praia do Lázaro, em Ubatuba, e
é um mito, pois até esta data ninguém sabia informar sua idade. O
conheço há mais de 30 anos, durante os quais, seu físico pouco se
modificou.
Eu era um moleque e ouvia fascinado as histórias que "Seu
Peres" contava sobre suas andanças como pescador. Hoje ele é
um próspero comerciante, dono do Hotel Canoeiro e do Restaurante do
Peres, que por sinal, são muito bons na Praia do Lázaro.
Na semana santa deste ano fui a Ubatuba e aproveitei para passar
pela praia do Lázaro e rever os amigos. Tive e idéia de
entrevistar "Seu Peres". Afinal, se aprendi tanto com esse
homem, porque não dividir isto com os amigos pescadores. Vamos lá!
"Seu Peres", em que ano o senhor nasceu e onde
exatamente?
Nasci aqui no Lázaro em 11 de novembro de 1912. Meu pai nasceu na
Ilha Anchieta e era descendente de espanhóis. Minha mãe era negra
e nasceu no sertão do Rio Escuro.
Isto explica porque o senhor, embora tenha pele escura, possui
traços delicados. Seu avô, espanhol, provavelmente era descendente
de algum comerciante ou mesmo pirata... Mas, continuando, como era a
vida no Lázaro naquela época?
A vida não era fácil. Pra você imaginar, fósforo era uma coisa
rara. Quando tinha, era vendido por unidade. A gente acendia o fogo
com laranjeira, em uma vala no chão cercada de três pedras
(tacuruba) e, à noite, cobríamos com cinza para não apagar. A
isto chamávamos de mãe do fogo. Quando ela apagava pegávamos um
tição emprestado do vizinho. Daqui à cidade eram 4 horas de
caminhada pela mata. Quando morria alguém, colocávamos o corpo em
uma rede e transportávamos até a cidade pela mata. E naquela
época havia inúmeros animais selvagens pela mata, onde abundavam
onças.
E a pesca, "Seu Peres"?
Quando eu era menino, ninguém pescava por aqui,
pois não tinha como conservar o peixe. Nós trocávamos ovos,
pinga, pimenta e banana por querosene, sal e sabão. Tanto é que
com 15 anos fui para Santos trabalhar num sítio de bananas. Havia
um barco chamado "Santanse" que, de 8 em 8 dias, fazia
ligação com Ubatuba. Eu voltava pra cá a cada 2 ou 3 meses para
deixar um dinheiro para a família. Em1943, por causa da guerra, a
exportação de bananas fracassou e a procura por peixe aumentou.
Então voltei e comecei a trabalhar com minha primeira canoa, feita
de timbaúba. O peixe salgado tinha muito valor na época. Foi ai
que comecei a pescar. A gente usava espinhel, mas não existia o
náilon. As linhas eram verdadeiras cordas de algodão e para que
não apodrecesse, a gente fazia um caldo de arueira e aplicava nas
cordas, isso dava uma impermeabilização. A linha "madre"
tinha mais de um dedo de espessura, dai saia os "estopros"
com os anzóis.
Onde o senhor soltava os espinhéis?
Aqui na frente mesmo, pegávamos inúmeros cações, alguns chegavam
a pesar 250 quilos. Às vezes soltávamos no canal do ilhote do sul
da Ilha Anchieta. Ali existiam cações enormes. Atrás do Mar
Virado, cruz credo! Era soltar o espinhel e perder. Os cações
desgraçavam com tudo e, quando sobrava alguma coisa do espinhel
encontrávamos cações de 70 quilos cortados pela metade. Nos meses
de maio a junho, pescávamos tainha. Pra isso utilizávamos dois
"espias".
O que eram "espias"?
À noite saíam duas canoas e ficavam observando as tainhas se
aproximarem da praia. Quando elas apareciam, eles davam um sinal e
os demais pescadores que pernoitavam na praia, punham logo outras
duas canoas com a rede e cercavam o cardume recolhendo-o à praia.
Numa daquelas noites, um bando de cações se aproximou e um deles
mordeu o fundo da canoa de um dos espias, que começou a fazer
água. Ele só se salvou porque o companheiro encostou logo a outra
canoa e ele mudou de embarcação. Depois comecei a pescar sardinha
na traineira de Pedro Leandro (pescador muito conhecido que faleceu
com mais de 90 anos. Com ele tive o prazer de uma vez pescar
garoupas). Quando saíamos em busca de sardinha, toda vez que
recolhíamos a rede, os cações arrodeavam a traineira e nós
lançávamos na água verdadeiras cordas munidas de anzol de 20 cm,
com um reforço soldado na curva do anzol para que ele não abrisse,
fazíamos um cacho de umas 15 sardinhas e era só soltar na água
que o bicho ferrava, depois segurávamos a corda e mais ou menos 8
homens. Pegávamos cações desta maneira de 350 quilos.
Com esta quantidade de tubarões o senhor deve ter visto
muitos acidentes.
Não. Nunca vi ninguém mordido ou morto por cação.
Mas como nunca houve nenhum acidente, com essa quantidade de
cações grandes, se hoje em dia, com menos peixes temos notícias
de vários ataques de tubarão?
Muito simples: os caiçaras da minha geração não sabiam nadar.
Nuca entravam na água, nem na praia e por isso mesmo só saíam com
tempo muito firme. Hoje em dia o pessoal pula no mar em qualquer
altura só para tomar um banho. Isso nunca acontecia naquele tempo.
Fora o cação, qual foi o maior peixe pescado pelo senhor na
linhada?
Foi
um mero de 150 quilos fisgado aqui mesmo na ponta do Lázaro.
Demorei umas 3 horas para tirar e ele arrastou a canoa por mais de
500 metros. Eu perdi um maior na ponta da Enseada. Devia ter uns 300
quilos. O mero é danado: quando percebe que está ferrado, sai como
um louco. Se a gente folga um pouco ele fica quase parado no fundo,
vai nadando muito devagar.
Depois destas características descritas pelo senhor, aliadas
a lembrança de um mero que perdi em Natal, conclui que o peixe -
batizado por mim de "coisa" - que perdi na Barra do
Pujuca, na Bahia, devia ser um mero de mais de 100 quilos. Mas
voltando as suas lembranças, o senhor não gostava muito de pescar
de linha?
Eu gostava sim. Muitas vezes ia à noite à Ilha Anchieta e nas
Palmas pescar garoupa. Naquela época pegava grandes bitelos. Usava
como isca bonito ou sardinha.
Agora o senhor vai me revelar um segredo: durante mais de 20
anos em que faço pescarias por aqui, o senhor sempre acertou o
tempo. Lembro-me que eu levantava às 5 horas da manhã para ver
como estava o mar e já o encontrava na praia. Então me dizia:
"Hoje tudo bem, pode ir". Às vezes, me falava: "Hoje
o mar vai virar". Todas as vezes que não ouvi seus conselhos
me arrependi. Como o senhor acertava?
("Seu Peres" dá um sorriso amarelo e começa a contar)
Como não sabíamos nadar e nossas embarcações eram meio
primitivas, não podíamos correr nenhum risco, por isso
observávamos bem os sinais do tempo. Quando as estrelas estão
brilhando demais no céu, é sinal que vai "noroestar"
(vento forte a noroeste). Quando no nascer do sol ou no por do sol
estiver muito vermelho o tempo vai virar. Antes de nascer o sol, se
as folhas das árvores tiverem bastante orvalho o tempo será firme.
Se elas estiverem secas o tempo vira. Outra prática infalível é
observar o Pico do Corcovado (em Ubatuba): se estiver bem limpo, o
tempo normalmente é bom; se estiver encoberto, vai chover.
Quando começou a acabar os peixes por aqui?
Depois de 1970 o peixe foi desaparecendo. Em primeiro lugar, acho
que foi por causa do excesso de arrasto. Por mais de 15 anos
arrastarem dia e noite aqui na baía do Lázaro, matando peixe que
vinha reproduzir ou crescer. Depois pelo desrespeito ao defenso na
pesca da sardinha. A sardinha é o pasto do mar, se não tiver
sardinha os peixes vão procurar alimento em outro lugar. Agora
pararam de arrastar porque não tem mais nada. É possível que o
peixe volte. Uma coisa que voltou foram as baleias. Durante muitos
anos elas vinham aqui na praia do Lázaro. Depois ficaram mais de 20
anos sem dar as caras. Agora, todo ano tem uma visitinha. Não na
quantidade que havia 40 anos atrás, mas estão voltando. As
tartarugas também estão aparecendo em maior número. Acho que é
devido ao Projeto Tamar.
E o senhor ainda pesca?
Profissionalmente e esportivamente. Ainda tenho meu cerco na
Anchieta, inclusive no ano passado, entrou uma tintureira de 250
quilos. E as vezes eu saio para apanhar um espada ou uma garoupa na
Ponta da Cruz.
Agora revele-nos um último segredo: o que faz para estar
assim em plena forma?
("O velho Peres dá uma risadinha, levanta-se, vai buscar
uma cerveja gelada e um camarão no bafo. Ao voltar, me diz:)
Conte um pouco das pescarias que você tem feito por ai, em outras
terras...
Embora ele dissimulasse bem, eu não me perdi. Quando deu uma
folga, chamei o Edinho, um de seus sete filhos, que toma conta dos
negócios do pai na Praia do Lázaro, juntamente com os irmãos
Carlinhos e Josué, e pedi que me contasse a formula do velho para
continuar assim, do mesmo jeito de quando o conheci, há 30 anos.
Ele também não fala, mas eu acabei descobrindo: "Seu
Peres" não come frituras; peixe, só ensopado; e salada quase
a semana toda; carne vermelha no máximo uma vez por semana; bebida,
muito pouco; levanta muito cedo; caminha uns 5 km de manhã e outros
5 km à tarde, ai ele entra um pouco na água do mar e nada muito...
Só, mar alimentação sadia, caminhadas, enfim, uma perfeita
harmonia com a natureza, o que resulta em muita paz. Assim nem dá
para perceber o tempo passando. É por isso que ele nunca vai
envelhecer.

O filho Jesué e a nora Cicilia,
administram o hotel e o restaurante |

A 3ª geração de "Seu Peres"
o neto Lucas |
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